15.12.07

Kassel (8) Sanja Ivekovic




Nascida em 1949 em Zagreb na antiga Jugoslávia (hoje na República Croata). O seu trabalho é "caracterizado pelo discurso crítico acerca das política das imagens e do corpo. A análise da identidade, construções nos media bem como a militância politica, a solidariedade e o activismo pertencem ás suas estratégias artísticas." Este trabalho intitulado de "triangulo" data de 1979 e é uma acção descrita pela autora da seguinte maneira: ’The action takes place on the day of the President’s (Tito) visit to the city. It develops as intercommunication between three persons: 1. A person on the roof of the high building which is across the street from my apartment 2. A policeman on the street in front of the house 3. Myself on the balcony. Due to the cement construction of the balcony, only the person on the roof can actually see me and follow my action. My presumption is that this person has a pair of field-glasses and a walkie-talkie. I also notice that the policeman in the street has a walkie-talkie. The action begins when I walk out on the balcony and sit on a chair. I drink whisky, read a book, and pretend to masturbate. After some time a policeman rings my doorbell and orders that ’persons and objects should be removed from the balcony’.’ Sanja Iveković Zagreb, Savska 1, 10 May 1979
As quatro fotografias das quais apresento duas ilustram o cenário que despoleta o acontecimento descrito. As tomas de imagens da autora parece mimar as perspectivas de câmaras de TV durante um acontecimento público do género deste. O mesmo dispositivo, do outro lado, o policial, determina o fim da acção.
Sanja Ivekovic foi a pioneira do video artístico na antiga Jugoslávia e a primeira a declarar-se feminista. Continua em actividade e a ocupar um lugar central no panorama artístico croata. O valor deste trabalho reside não tanto no sinal político expresso pela postura feminista mas sim na própria estratégia de subversão e provocação pela armadilha à estrutura preenchida da vigilância policial e à moralidade do policial masculino (embora eu desconfie de que se fossem mulheres polícias o resultado seria idêntico). As ordens de evacuação da varanda excedem pela actividade simulada da autora a normal missão policial que consistiria em salvaguardar a existência de um eventual atentado. A natureza intrinsecamente dictatorial da policia sustentada nos sistemas de vigilância revela-se assim.

14.12.07

Kassel (7) Anatoli Osmolovsky



Osmolovsky nasceu em Moscovo em 1969. O primeiro trabalho data de 1993. Osmolovsky senta-se no ombro da estátua colossal de Maiakovsky. A fotografia foi tirada durante o processo complexo da queda do regime comunista. Como o mais importante poeta da vanguarda futurista russa e apoiante radical da revolução, Maiakovsky acabou por se suicidar em 1930 em pleno regime Estalinista nunca negando a sua fidelidade a esse regime. Maiakovsky preenche assim um estranho espaço que nos leva a pensar também na carreira de um outro grande artista soviético; falo de Shostakovich. Ambos são comunistas entusiastas na juventude mas o freio jdanovista e realista "popular" do regime acabou por quebrar a genuína vertente revolucionária de ambos. Maiakovsky não sobreviveu. Shostakovich manobrou. Teve mesmo de o fazer para sobreviver nas terríveis décadas de 30 e 40. Estaline elevou o herói convenientemente morto da poesia futurista á dimensão sobre humana de símbolo; como o pai da poesia comunista russa. Para nós, deste lado e particularmente durante os anos do degelo da guerra fria, Maiakovsky foi lido sobretudo como revolucionário, agitador, inspirador do desejo de alternativa ao sistema também ele podre do estado totalitário liberal-burguês. Osmolovsky ao subir aos ombros de Maiakovsky manifesta-se, não sem ironia, como herdeiro de todas as contradições de um projecto por realizar. A monumentalidade opressiva da estátua de Maiakovsky imediatamente transforma-se em gesto monumentalmente libertário. Observando por outro lado a fotografia não nos pode deixar de assaltar a sensação de solidão de um montanhista, de um "conquistador do inútil," reflectida na frieza que se pressente (na própria praça) de um estado que permanentemente ameaça e realiza a sua regeneração como opressão. Tal facto, que se confirma com Putin parece ser patente num trabalho recente deste mesmo Osmolovsky (na segunda imagem). Think Tank ou as relações tenebrosas entre o belo e o letal. As belas e cómodas peças de bronze que ficariam bem em qualquer mesa daquelas só para decorar não são mais do que torres de tanques contemporâneos de fabrico americano, russo, israelita, brasileiro e etc, cada uma com o seu carácter nacional específico. Foi com a torre do temível T-72 russo (claro!) e com todo o interesse que tem despertado que Osmolovsky ganhou a 5 de Dezembro último o Prémio Kandinsky (o Turner prize versão russa).

13.12.07

Kassel (6) Os Albuns Saray de Berlim


"Será a Modernidade a nossa Antiguidade?" Esta foi a frase que os organizadores da Documenta XII escolheram como o fio de ariana do projecto. A esta pergunta, à guisa de chave adicionam duas citações fundadoras da problemática da modernidade estética; 1) "A Arte, considerada na sua mais alta vocação, é e continua a ser para nós uma coisa do passado." (Hegel) 2) "Por modernidade quero dizer o efémero, o fugitivo, o contingente, a metade da Arte cuja outra metade é o eterno e o imutável."(Baudelaire)
Esta gravura persa retirada de um álbum de gravuras avulsas de várias culturas trazidas para Berlim por um embaixador alemão no século XVIII em Istambul e datada em torno do século XV denota influencias gráficas da China. estes contactos fizeram-se nas estepes da Ásia central, por intermédio dos potentados que nasciam e morriam nas vicissitudes da rota da seda. Os autores chamam-nos a atenção sobre os elementos da paisagem oriental, as rochas, a água e as nuvens. Entendem estes elementos, no modo como contaminam e se transmitem de modo paisagístico para modo paisagístico como "destino" e metáfora de transformação e transmissão cultural, particularmente daquilo que se quer observar hoje como determinante da formação identitária de uma actualidade; a paridade dinâmica de culturas no fenómeno de transculturalidade.

12.12.07

Kassel (5) Lin Yilin



"Numa tarde pouco excepcional em Junho de 2005 uma parede de tijolos de cimento é movida peça a peça por Lin Yilin atravessando a Avenida Lin He em Guangzhou (Cantão)." - A relação de choque inesperada entre o "eu" espectador e o real urbano cinzento e caótico faz-nos pensar que a Avenida Lin He poderia ser uma outra qualquer no mundo. Mas independentemente de todos os cogitanços existenciais, lá que esta é uma ideia brutal lá isso é que é. Note-se que a parede vai pela passadeira e por isso tem prioridade.

11.12.07

Kassel (4) Gerhard Richter



Betty; 1977. A história desta pequena pintura é mais ou menos complexa segundo nos é apresentada. Richter tirou três fotografias à filha. No ano anterior Ulrike Meinhof foi encontrada na sua cela enforcada com uma toalha. A revista Stern publicou a fotografia que se vê em baixo num spread com a dobra das páginas a coincidir com o pescoço da activista e co-fundadora da Rote Armee Fraktion. Richter teria ligado as duas imagens. No texto refere-se ao detalhe frio da pintura de Richter como metáfora do aço da guilhotina, devolvendo-nos o rosto de Betty aquilo que Ulrike já não pode: o olhar. Na verdade Richter pinta assim normalmente, com grande fidelidade ao referente fotográfico. Não era necessária esta história para nos deixarmos impressionar pela pintura. A ambiguidade da pose não evidencia apenas a postura "indefesa" da vítima (e poderíamos também associar aqui o sacrifício de Isaac ou um S. João Baptista decapitado na bandeja), mas também esse estranho olhar de adulto sem dúvida motivado pela atenção à objectiva e ao pai. Uma imagem pintada muito forte e isto, independentemente da leitura política que se possa ou queira fazer a partir dela.
(Ulrike Meinhof e "cabeças decapitadas" por Gericault)




Kassel (3) Trisha Brown





Trisha Brown deu-me seca. Tudo muito informal com aquela cama de roupas onde os performers descansavam e interagiam depois de uns passitos sincronizados. E ficavam-se neste ram-ram durante todo o dia. Fame! ai uanna liva foréva... Eu sei que foi ela que inventou esta coisa de se dançar com banalidades mas cansa. Excessivamente bonzinho.

10.12.07

Kassel (2) Kerry James Marshall






Não preciso dizer aqui porque gosto. Já o tinha visto na Documenta X. Afro-americano de Chicago nascido em 1955. "Marshall makes use of various époques and styles and develops many different methods of portrayal in his painting, collages, videos and comics. Black figures enter the image and remain center stage. He combines classic, popular and conceptual motifs with political history, the history of art and his own experiences." Grande pintura. Note-se a justaposição que os organizadores lograram ao extender ao Schloss Wilhelmshöhe a Documenta que assim entra em diálogo com peças da colecção de arte antiga (que possui um excelente e alargado núcleo de Rembrandt).

9.12.07

Lutz Mommartz (Oporto, 7 de Dezembro 2007) (2) Markeneier




Outro filme de Mommartz apresentado por Alexandre estrela no Oporto. Markeneier ou Ovos. No site do qual forneço o link (ver post anterior) podem ver-se integralmente bastantes mais trabalhos do autor para além destes dois.

Lutz Mommartz (Oporto, 7 de Dezembro 2007) (1) 3 Gläser







Oporto não é só (em inglês) a simpática terrinha ao sul da Maia mas também o nome do local de trabalho de Alexandre Estrela & friends. A última projecção que tinham realizado no espaço em Santa Catarina tinha sido o "Burn" da dupla Reynold Reynolds & Patrick Jolley que vi em Berlim na Bienal e do qual dei notícia aqui em Junho de 2006. Desta vez apresentaram dois filmes de um cineasta experimentalista alemão, Lütz Mommartz. Ó santa e concisa unheimlichkeit! Até dá vontade de sair por aí a filmar disparates.

Kassel (1) Harun Farocki




Atrasado, bastante atrasado começo a publicar notas sobre trabalhos que por alguma razão achei dignos de nota na Documenta XII. De um jogo de futebol anormalmente emotivo, a final do campeonato do mundo de 2006 (a tal da cabeçada zidaneana) extraem-se registos paralelos (cerca de uma duzia) que nos mostram o jogo como uma espécie de rotina de peixes num aquário. Desprovido do entusiasmo do relato e da montagem dos operadores de câmara esta perspectiva sem qualquer corte focada em aspectos simultâneos do jogo, analises de computador, as notas retiradas pelos comentadores ou o tecnicismo frio das comunicações policiais, retira-lhe qualquer emotividade ou poder de excitação. A tristeza maquinal do laboratório hiper-tecnológico do futebol em metáfora de vida é reforçada pelo plano contínuo do céu de fim de tarde sob o estádio. O video-bardo é um checo. Farocki de nome e nascido em 1944.